Resenha do Livro Imortalidade da Alma

por Tania M. L. Torres

 

CULLMANN, Oscar. Imortalidade da alma ou ressurreição dos mortos? O testemunho do Novo Testamento. Tradução: José Carlos Ebling. Artur Nogueira, SP: Centro de Estudos Evangélicos, 2002.

 

Em sua obra, Cullmann tenta mostrar através de um estudo exegético, o contraste ou a diferença radical entre a esperança cristã da ressurreição dos mortos e a crença grega na imortalidade da alma. O autor tenta descobrir certos pontos de contato entre esses dois pontos de vista, mas deixa claro que as premissas fundamentais são irreconciliáveis. O cristianismo estabeleceu, posteriormente, um elo entre as duas crenças, mas Cullmann mostra que a esperança da “ressurreição do corpo” e a crença na “imortalidade da alma” são, de fato, mutuamente exclusivas. Como inspiração para seu estudo, o autor usa o quadro do altar de Isenheim, pintado pelo artista medieval Grünewald, bem como a obra musical de Sebastian Bach, nos quais se expressa não a imortalidade da alma mas o evento da ressurreição do corpo. Para Cullmann, esses artistas se revelaram como os melhores expositores da Bíblia.

            No capítulo 1, encontramos uma analogia entre Sócrates e Jesus. Há um claro contraste entre a morte de Sócrates e a de Jesus. No ensino grego de imortalidade, a alma, está confinada dentro do corpo, que pertence ao mundo eterno. Enquanto a pessoa vive, sua alma se encontra em uma prisão, ou seja, em um corpo essencialmente estranho a ela. A morte é, segundo essa crença, a grande libertadora. Sócrates foi para a morte em completa serenidade e paz. Ele não a temeu, pois, para ele, ela o libertaria do corpo, por ser a grande amiga da alma. Em contraste, Marcos 14:33 relata que Jesus, no Getsêmani, começou “a sentir-se tomado de pavor e angústia”. Jesus sabia ser a morte “inimiga de Deus”, sendo esse o nome que Paulo lhe dá em 1 Coríntios 15:26.

            No capítulo 2, o contraste entre a idéia grega da imortalidade da alma e a crença cristã na ressurreição é ainda mais profundo. A interpretação judaica e cristã da Criação exclui o dualismo grego de corpo e alma, pois o visível e corpóreo seria tão verdadeiramente criação de Deus como o invisível. Por considerar Deus como o autor do corpo, este não pode ser a prisão da alma, mas, ao contrário, um templo, como diz Paulo em 1 Coríntios 6:19: o templo do Espírito Santo. A distinção básica se encontra aqui. Corpo e alma não são opostos. Deus considerou o corpóreo “bom” após tê-lo criado. A história de Gênesis explicita essa idéia. A alma é o ponto inicial da ressurreição, ela não é imortal. Deve haver ressurreição para ambos; pois desde a queda o homem todo está “permeado pela corrupção”. Para o homem interior, graças à transformação pelo poder restaurador do Espírito Santo, a ressurreição já pode ocorrer nesta vida presente: através da “regeneração dia a dia”. A carne, entretanto, ainda mantém seu lugar em nosso corpo.

            No capítulo 3, enfatiza-se que Cristo ressuscitou: isto é, estamos em uma nova era na qual a morte foi conquistada e não há mais corruptibilidade. Pois, se existe realmente um corpo espiritual (não uma alma mortal, mas um corpo espiritual) que emergiu de um corpo carnal, então, sem dúvida, o poder da morte foi rompido. Entretanto, a despeito do fato de que o Espírito Santo já está operando tão poderosamente, os homens ainda morrem, mesmo após a Páscoa e o Pentecoste. Nosso corpo permanece mortal sujeito à doença. Sua transformação em corpo espiritual não ocorrerá até que toda a criação seja renovada por Deus. Somente então, pela primeira vez, não haverá nada exceto o Espírito, nada exceto o poder da vida, pois a morte será finalmente destruída, surgindo um novo céu e uma nova terra: a esperança cristã. Então o nosso corpo também ressuscitará da morte; porém não como corpo carnal, mas como corpo espiritual.

            O capítulo 4 fala sobre o estado intermediário, no qual o homem interior, despido de seu corpo carnal, mas ainda privado do corpo espiritual, existe com o Espírito Santo. As cenas usadas no NT para descrever a condição dos mortos em Cristo provam que, mesmo agora, neste estado intermediário dos mortos, a ressurreição de Cristo – a antecipação do Fim – já está efetivada. Eles estão “com Cristo”. A confiança na proximidade de Cristo está alicerçada na convicção de que nosso homem interior já está tomado pelo Espírito Santo. Desde o tempo de Cristo nós, os vivos, temos o Espírito Santo. Se Ele realmente está em nós, já transformou nosso homem interior. Assim, então, um homem que perde o corpo carnal, está ainda mais perto de Cristo do que antes, se ele tem o Espírito Santo. O homem interior, despido do corpo, já foi ao longo de sua vida transformado pelo Espírito Santo. Embora ainda esteja “dormindo”, o cristão que morreu tem o Espírito Santo. O NT leva-nos à visão de que, para os mortos, existe outra noção de tempo, aquela “daqueles que dormem”. Mas isto não significa que os mortos não continuam no tempo. Portanto, outra vez vemos que a esperança de ressurreição no NT é diferente da crença grega na imortalidade.

            O texto apresenta, portanto, argumentos convincentes em favor da doutrina cristã da ressurreição dos mortos e sua superioridade em relação às idéias platônicas do dualismo e da imortalidade. Seu único descuido é, no entanto, apresentar o pensamento grego como sendo todo ele representado pela posição de Platão. Ora, os gregos não apresentavam uma concepção monolítica da natureza humana ou do estado do homem após a morte. Muito daquilo que Cullmann atribui aos gregos nada mais é, contudo, do que as idéias platônicas sobre o assunto. Ora, a influência de Platão em sua época é muito menor do que supomos, hoje, após sua reinterpretação pelo neoplatonismo e pelo escolasticismo cristão. Corrigir tal distorção não é difícil, porém, tudo o que precisamos fazer é ler a expressão “pensamento platônico” em vez de “pensamento grego” ao longo de todo o texto.

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  1. [...] renomado teólogo não-adventista, Oscar Cullmann, também reconheceu que o ensino dos grandes filósofos Sócrates e Platão (que disseminaram a [...]

  2. [...] renomado teólogo não-adventista, Oscar Cullmann, também reconheceu que o ensino dos grandes filósofos Sócrates e Platão (que disseminaram a [...]

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