A Esposa do Pastor e Seu Círculo Itinerante de Amizades

por Tania M. L. Torres

 

Tenho sido uma esposa de pastor já por vinte e três anos. Diferentemente de outras esposas de pastor, não posso dizer que tenha tido uma vida muito nômade. Em seu ministério, meu marido só teve que se mudar para outra comunidade sete vezes nesses vinte e três anos. Temos a felicidade de trabalhar na área educacional, na qual as mudanças de residência são menos comuns do que na área do pastorado de igrejas. Mesmo assim, considero acima da média o número de sete mudanças de comunidade, em relação a mulheres cristãs que têm empregos seculares e cujos esposos não são pastores. A verdade é que cada mudança de comunidade significa uma reeducação de hábitos e a criação de um novo círculo de amizades. Isso representa uma carga emocional considerável, especialmente para a esposa de pastor. Os filhos acomodam-se geralmente em escolas adventistas onde é relativamente fácil a criação de um novo círculo de amizades. O pastor, empolgado com o novo distrito pastoral e bastante absorvido pelo trabalho, não sente tanto a mudança. Mas a esposa, especialmente se não trabalha fora do lar, tem que lidar sozinha com o fato de que perdeu suas amigas mais íntimas e tem, agora, que cultivar novas amizades. A Igreja reconhece que o papel desempenhado pela esposa do pastor é vital para seu sucesso espiritual e profissional. A Igreja também reconhece que as exigências impostas pela comunidade sobre o comportamento e as atitudes da esposa de pastor são quase sobre-humanas. Contudo, nem sempre a esposa de pastor recebe a simpatia que merece por freqüentemente abrir mão das amizades que cultivara no distrito anterior a fim de aventurar-se com as novas amizades que lhe reserva seu próximo distrito. Dita assim, esta declaração pode parecer banal, mas quem já passou pela experiência, sabe como isso é difícil.

            Além de ser esposa de pastor, tenho duas cunhadas que se casaram com pastor. Uma delas não resistiu às pressões e não somente deixou o esposo como também deixou a igreja. Diante de uma mudança de ambiente, às vezes sinto-me como se minha vida fosse um pequeno aquário no qual não há muito espaço para outras pessoas além de minha própria família. Imagino que este mesmo sentimento exista no coração de outras esposas de pastor que tenham passado por, talvez, até mais constantes mudanças do que já experimentei em meu ministério de esposa de pastor. Esses sentimentos de inadequação e minha formação em sociologia me fizeram interessar pelo impacto que a falta de um círculo de amizades pode ter sobre a esposa do pastor. Os estudos sobre o crescimento de igrejas indicam que o apelo da doutrina é um elemento secundário para a conversão quando comparado com o desejo de estabelecer vínculos sociais com os membros da Igreja. O sociólogo Rodney Stark declarou, em seu livro Sociology, que a conversão ocorre quando, mantido tudo o mais, as pessoas têm ou desenvolvem vínculos mais fortes com os membros da Igreja do que aqueles que têm com as pessoas fora da Igreja. Em outro de seus livros, intitulado O crescimento do Cristianismo, o mesmo sociólogo afirma que a Igreja cresce mais rapidamente quando sua doutrina se dissemina ao longo de redes sociais preexistentes. O que quero afirmar é que a Igreja exige que a esposa de pastor seja um modelo cristão, mas não lhe dá as condições para que ela possa desenvolver sua religiosidade da mesma forma que outros cristãos o fazem. Isto é, os velhos membros e os novos conversos à Igreja Adventista do Sétimo Dia têm à sua disposição uma ampla rede social preexistente que inclui o aconchego dos pequenos grupos e o conforto de uma igreja amorosa que os acolhe e nutre durante sua caminhada cristã. Mas isso não ocorre em relação à esposa do pastor, que se vê arrancada de seu círculo de amizades e transportada para um novo ambiente que, se não é hostil, tende a ser desafiante e, em alguns casos, até indiferente. No entanto, afirmo que, para que uma esposa de pastor tenha uma vida espiritual saudável, é vital que experimente um sentimento de pertinência a alguma rede social que seja de sua escolha.

            Associações de esposas de pastor têm tentado minimizar a solidão e o isolamento que, às vezes, as acometem. No entanto, essas tentativas esbarram, com freqüência, em sua artificialidade, especialmente se são dirigidas pela esposa de um departamental ou presidente de campo, isto é, pela esposa de quem decide o destino profissional de meu marido. Tenho me interessado bastante pelas idéias de um médico e psicólogo norte-americano, chamado Donald Winnicott. Em seu livro Gesto espontâneo, Winnicott sugere que as atitudes espontâneas são as únicas que adquirem significado em nossas experiências sociais e espirituais. Ou seja, pertencer a uma rede social imposta ou artificialmente criada é pouco mais do que não pertencer a rede alguma. Por isso, o caminho para que se mitiguem os sentimentos de isolamento experimentados por algumas esposas de pastor passa longe das decisões arbitrárias e dos manuais enlatados produzidos nos escritórios a quilômetros de distância dos problemas reais vivenciados por essas mulheres de fibra. O que precisamos é de uma mudança de mentalidade por parte da igreja local, dos esposos e da administração do campo. É preciso que deixem de nos visualizar como sendo os protótipos da santidade e que passem a nos encarar como mulheres cristãs com as mesmas necessidades espirituais e sociais dos demais membros da igreja. É preciso que nos vejam como aquilo que, de fato, somos: mulheres cristãs jornadeando em direção ao mesmo alvo: a estatura de Cristo Jesus. No entanto, nós ainda não chegamos lá. Estamos na mesma jornada, na mesma caminhada, no mesmo esforço, na mesma luta diária, esmurrando o corpo e sujeitando-o.

            As pressões do aquário são muitas, mas podemos resistir a elas, desde que nos mantenhamos unidas, evitando sobrecarregar-nos, trabalhando pela igreja em áreas compatíveis com os nossos dons, nãveis com os nossos dons, os , desde que inhada, no mesmo esforço, na mesma luta dipor algumas esposas de pastor passa longe o abrindo mão de nossa vida particular, investindo em nosso casamento e buscando amizades sinceras em todos os distritos pelos quais passarmos. A esposa de pastor pode fazer muito pela Igreja. Kay Warren, esposa de Rick Warren, iniciou, com o esposo, um ministério na Igreja de Saddleback, nos Estados Unidos, quando só havia sete pessoas freqüentando aquela igreja. Hoje, Saddleback é uma das maiores igrejas evangélicas dos Estados Unidos. Da mesma forma, Sung-Hae Kim ajudou o esposo Paul Yonggi Cho a criar a maior igreja evangélica do mundo: a Igreja do Evangelho Pleno. E ela fez isso enquanto era a reitora da Universidade Hansei, na Coréia. Ruth B. Graham, esposa do evangelista Billy Graham, construiu sua própria casa enquanto o marido se ausentava, no início da carreira, para as campanhas que realizava constantemente. Uma Igreja Adventista do Sétimo Dia geralmente tem um carinho especial pela esposa de seu pastor. Que pessoa foi mais amada por esta Igreja do que Ellen White, uma esposa de pastor? No entanto, esse carinho pode ser sufocante, às vezes, quando acompanhado de exigências injustificadas, cobranças excessivas e tentativas contumazes de controle. Mas, repito: quando amada e livre, a esposa de pastor é capaz de grandes realizações. Na igreja primitiva, a esposa de pastor desempenhou um papel tão fundamental para o sucesso da pregação apostólica que a Bíblia nos informa que os apóstolos, exceto Paulo, não iam a lugar algum sem a esposa (1 Cor 9:5).

            Quantas vezes um pastor é transferido e a esposa perde o emprego, mesmo trabalhando na obra. Quantas vezes o esposo é transferido e a esposa tem que interromper os estudos. Eu mesma demorei longos anos para concluir a graduação em sociologia… Quantas vezes ficamos sem as amigas e os rostos familiares! Parece não haver uma solução imediata para o caráter itinerante do círculo de amizades das esposas de pastor. No entanto, todos aqueles ao nosso redor podem demonstrar-nos mais simpatia, mais compreensão, mais respeito pelos constantes esforços que fazemos em prol do avanço do evangelho e do sucesso do homem e da Igreja a que amamos.

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