Resenha do Livro Globalization or Empire?

por Tania M. L. Torres

 

PIETERSE, Jan Nederveen. Globalization or Empire? New York & London: Routledge, 2004. 191 pp.

 

Na década de 90 o principal assunto nos debates da política e das ciências sociais era a globalização. No novo milênio, nossa procupação tem se voltado para o tema do imperialismo. Agora surge a questão óbvia de como a globalização se relaciona com o império. Pieterse indaga, portanto, se deveríamos considerar o imperialismo como uma fase ou modalidade da globalização, ou uma dinâmica inteiramente diferente. Assim, em seu primeiro capítulo, o autor enfoca o deslocamento da ênfase política e econômica do norte para o sul dos Estados Unidos. Trata também da conexão entre a guerra fria e o neoliberalismo, bem como do assim-chamado “consenso de Washington”. O autor examina a globalização neoliberal e presta atenção especial ao papel da América do Sul na reformulação do capitalismo norte-americano, além da contribuição da guerra fria para a criação de um verdadeiro neoliberalismo.

De acordo com Pieterse, a globalização neoliberal como abordagem dominante da política não significa que esta seria a única forma de globalização, mas no sentido de que esta se tornou um regime global. Os estudiosos geralmente explicam o início do neoliberalismo como uma confluência das idéias econômicas da Escola de Chicago com as políticas de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Outra possibilidade seria o assim-chamado “Consenso de Washington”, a ortodoxia econômica que norteou o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial em suas políticas, na década de 90, e levou o neoliberalismo a se transformar em política global. Com efeito, Tickell e Peck discutem o desenvolvimento do neoliberalismo em três fases: proto-liberalismo (1940-1970), fase em que as principais idéias tomaram forma; fase introvertida (década de 80), na qual o liberalismo se tornou a política governamental dos Estados Unidos e da Inglaterraç e fase extrovertida (década de 90), quando se tornou hegemônico nas instituições multilaterais.

Na opinião de Pieterse, quando atribuímos a origem do neoliberalismo às idéias e teorias da Escola de Chicago, nós passamos por alto as políticas econômicas que realmente deram forma ao “verdadeiro neoliberalismo” antes da era Reagan. O sul dos Estados Unidos já, naquela época, praticava taxas baixas e um baixo regime de serviços da forma como os defensores de mercados livres propunham. O verdadeiro neoliberalismo praticado, nos Estados Unidos, nas décadas de 70 e 80, significou a implementação de uma economia baseada em baixos salários e baixas taxas conforme o modelo sulista. De fato, a matriz material do neoliberalismo é o sul dos EUA, mas se sua política de baixos salários, exploração do trabalhador, hostilidade aos sindicatos e cultura reacionária tivesse sido abertamente defendida, ela jamais teria tido a mesma atração glamorosa da teoria dos mercados livres. É, por isso, que tanto as estratégias do neoliberalismo quanto as da guerra fria são elementos fundamentais para que se compreenda o caráter real da globalização neoliberal e suas metamorfoses subseqüentes.

De acordo com o autor, essa estratégia econômica do sul dos EUA tem suas raízes no período de reconstrução do governo Reagan. O sul tem sido uma estufa política para as idéias econômicas conservadoras desde o período colonial. As reformas de Reagan atacaram os movimentos trabalhistas e de direitos civis e enfraqueceram o ambiente de trabalho e as leis de proteção ambiental e diminuíram a prestação de serviços públicos. Essa reestruturação econômica veio acompanhada de uma repercussão cultural antidemocrática e racista que teve seus primórdios, no sul, na década de 60 com George Wallace. Não foi mero acidente       que os grupos atacados por Wallace fossem os menos poderosos da sociedade norte-americana (tais como mães solteiras e imigrantes, que se tornaram presa fácil para uma mentalidade que procurava bodes expiatórios. Em 1971, a população carcerária do sul era 220% mais alta que a do nordeste. Só agora que os índices carcerários nacionais começam a se aproximar dos que existem no sul há muito tempo.

Da mesma forma, o autor acredita que a administração das multinacionais se tornou punitiva, tendo adotado as estratégias de salários baixos e exploração excessiva dos trabalhadores, na busca de uma saída para a crise financeira dos EUA. O problema é que tais estratégias acabaram se tornando o comportamento padrão nos EUA. “Desregulamentação” e cortes nos impostos viraram chavões na busca da competitividade e da flexibilidade. Contudo, o que ocorreu, de fato, é que todas essas mudanças convergiram para a formação de um regime altamente exploratório. Houve, assim, uma indústria americana à moda de Dixie que produziu uma mística sulista que operava com base em um orientalismo interno nos EUA. Tudo isso foi acompanhado das costumeiras dicotomias entre o norte e o sul como, por exemplo, entre as que ocorrem entre o moderno e o tradicional, o racional e o irracional, o secular e o fundamentalista, o urbano e o rural, a tolerância e o racismo, e que ocorrem em outras regiões do mundo.

Assim, o que sustenta a economia norte-americana de forma estruturada é uma combinação de expansão, déficit financeiro do governo e o influxo de capital estrangeiro. A principal forma de financiamento para o governo é o complexo industrial militar. De fato, a entrada de capital estrangeiro é uma das pedras angulares da economia norte-americana. Como as rendas, no país, estão estagnadas, é necessário que se comprem produtos e serviços cada vez mais baratos da China e da Ásia. Da mesma forma, os norte-americanos se tornam cada vez mais dependentes da mão-de-obra barata dos imigrantes, especialmente dos mexicanos. O período do proto-neoliberalismo do pós-guerra coincidiu com a guerra fria. Durante esses anos, a infra-estrutura do neoliberalismo passou a impregnar o pensamento econômico, a ideologia do mercado livre e a política econômica (com o aparecimento dos assim-chamados “rapazes de Chicago” no Chile e na Indonésia). Durante a guerra fria, interesses econômicos e segurança se misturaram no complexo industrial militar. A economia, política e as instituições se concentrarem em torno do complexo industrial dos militares por tanto tempo que este já se tornou uma lógica funcionalmente autônoma.

Já o assim-chamado “Consenso de Washington” se formou no fim da década de 80 como uma receita econômica para os países em desenvolvimento. Suas principais bases são o monetarismo, a redução e regulamentação dos gastos do governo, a privatização, a liberalização do comércio e dos mercados financeiros e a promoção do crescimento das exportações. O fim da guerra fria tem sido associado, portanto, com a crescente politização do FMI pelos EUA. A partir da década de 90 os EUA passam a usar o FMI para recompensar seus aliados e punir seus inimigos. As instituições de Washington passam a ser dirigidas pela panelinha de Wall Street-Tesouro-FMI de acordo com a ortodoxia econômica de modo que a história da globalização neoliberal nada mais é do que o unilateralismo econômico dos EUA.

Através da reforma estrutural, a combinação do capitalismo à moda de Dixie com a engenharia financeira de Wall Street extrapolou para a escala global. A economia sulista com sua estrutura profunda de latifúndios ilumina as realidades do ajustamento estrutural no sul global. Esse neoliberalismo que é exibido no sul é também conhecido como “a estrada haitiana para o desenvolvimento”. O objetivo do neoliberalismo era acabar com a economia do desenvolvimento e a idéia de que os países em desenvolvimento são um caso especial. Em vez disso, promove-se agora um mercado livre, sem restrições, como a resposta a todas as questões econômicas. O sociólogo Ulrich Beck comentou recentemente que o ataque de 11/09 foi o Chernobyl da globalização. De repente, as bases aparentemente irrefutáveis do neoliberalismo perderam sua força em um mundo de perigos globais. O neoliberalismo sempre havia sido uma filosofia de tempo-bom, que funciona apenas quando não há crises ou conflitos sérios. O projeto neoliberal continua a se desdobrar e agora o “Consenso de Washington” enfrenta sérios problemas. O FMI não tem mais credibilidade para tratar crises financeiras nem mesmo em Washington ou Wall Street. Pode-se até dizer que não existe mais consenso em Washington. O que resta é um conjunto heterogêneo e ad hoc de itens na agenda de Washington. Em economia, as ortodoxias neoliberais não são mais amplamente aceitas. A atenção foi desviada da falha estatal para a falha mercadológica e para a importância de instituições e temas como, por exemplo, o do capital social. Vinte anos de liberalismo rompante criaram uma cultura e um habitus (≈ latim “vício”) de neoliberalismo. O estudo antropológico dos significados do “mercado” na cultura ocidental revela que as pressuposições básicas do modelo mercadológico são de que o mundo consiste de indivíduos livres que são instrumentalmente racional e operam em um mundo composto apenas de compradores e vendedores. O ethos (grego “caráter”) peculiar do capitalismo de cassino que a globalização neoliberal criou no mundo é, em última instância, uma carga cúltica ocidental. Seus rituais secretos incluem o capitalismo de Dixie, a charlatanice de Wall Street e a estratégia da guerra fria.

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