Resenha do Livro The Work of Culture

por Tania M. L. Torres

OBEYESEKERE, Gananath. The work of culture: symbolic transformation in psychoanalysis and anthropology. Chicago & London: University of Chicago Press, 1982.

Em sua primeira palestra (acerca da representação e formação do símbolo na antropologia psicanalítica), Obeyesekere mostra os limites e as possibilidades para o estudo antropológico e psicoanalítico dos sistemas simbólicos. O autor recorda Ricoeur ao afirmar que a significância filosófica da psicanálise para a sociedade ocidental é precisamente o destronamento da consciência que foi alcançada por Freud, Nietzche e Marx. A noção cartesiana da consciência, que é central para a ciência e a filosofia dos ocidentais, perdeu a primazia ao se descobrir que a consciência pode errar. Dessa forma, a psicanálise se torna tanto uma ferramenta quanto uma técnica para alcançar o que geralmente permanece inalcançável em outras circunstâncias, isto é, a livre associação e uma teoria que proporcione um conjunto de regras capazes de interpretar tal processo. De fato, pensadores recentes da estirpe de Foulcault embora notem que o pensamento se enraíza no pano de fundo da história e da cultura, têm chegado à conclusão equivocada de que o pensamento “nomológico” não possui a habilidade de transcender o tempo, o lugar, a cultura e as cadeias da história.

            Para o autor, o problema fundamental da antropologia psicanalítica é entender a maneira como as motivações arcaicas da infância são transformadas em formas simbólicas tanto sob a forma de símbolos, quanto de mitos ou representações coletivas. O modelo básico para isso já é dado por Freud em A interpretação dos sonhos, cuja teoria é essencialmente relacionada à formação de imagens e símbolos, embora se limite ao sonho visto como um conjunto simbólico. Freud trabalha com as regras ou princípios fundamentais da transformação simbólica (condensação, deslocamento, representação pelo oposto, projeção, etc).

Essas regras de operação dos sonhos são básicas e se aplicam à operação da cultura também. De forma ideal, nós deveríamos ser capazes de formular as regras de operação da cultura à moda das regras da operação dos sonhos. Mas talvez isso seja impossível na prática. O autor sugere, então, que o pesquisador se contente com o seguinte:

a)                            um relato descritivo do modo como a motivação profunda se transforma em cultura pública;

b)                           uma formulação provisória das regras de como a cultura opera em áreas amplas da vida;

c)                            uma formulação mais rigorosa dessas regras em alguns tipos específicos de formas simbólicas como, por exemplo, o caso da possessão demoníaca.

Se as regras de operação dos sonhos funcionarem também no âmbito da cultura, então vai se poder afirmar que as regras de operação da cultura também podem se aplicar aos sonhos. O autor dá duas razões para isso. Em primeiro lugar, o assim-chamado “afastamento simbólico” (symbolic remove) tem por âncora um princípio mais básico chamado de “substituibilidade”, especialmente em ambientes nos quais tal “substitubilidade” é tão importante quanto nos sonhos. Em segundo lugar, já que os sonhos são influenciados pela cultura, os princípios básicos que nós sabemos influenciarem a cultura, podem também influenciar os sonhos.

            Se dentro de uma única sociedade existirem sistemas simbólicos que estejam mais próximos das fontes motivacionais infantis do que outros, então é também possível que algumas sociedades se submetam a algumas propensões sem cederem a outras, ou que não se submetam a nenhuma delas, permanecendo relativamente indiferentes à elaboração simbólica em qualquer direção. Dessa forma, existiriam quatro orientações simbólicas ideais agindo “crossculturalmente”:

a)      a utilização plena tanto da regressão quanto da progressão, tendo como conseqüência graus diferentes de “afastamento” simbólico das motivações arcaicas;

b)      a utilização de símbolos progressivos ou prospectivos em detrimento da regressão;

c)      a utilização da regressão onde o sistema simbólico se encontra mais próximo das fontes motivacionais;

d)     a utilização mínima da “simbolização cultural” (como no protestantismo e, talvez, nas sociedades tradicionais).

O potencial simbólico dos seres humanos, em todos os lugares, como conseqüência de sua natureza neurofisiológica, pode ser idêntico, mas a utilização de tal potencial em sociedades humanas que estão em existência diverge consideravelmente, pois algumas sociedades são mais propensas à elaboração simbólica enquanto que outras não o são. Além disso, algumas sociedades permitem a elaboração simbólica em certas áreas específicas enquanto que outras, como a Índia hinduísta, permitem a proliferação extrema de símbolos culturais em todos os âmbitos possíveis. A conclusão do autor é de que, por toda a parte, há instituições que promovem, inibem ou impedem o desenvolvimento dos sistemas de símbolos religiosos.

 

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